Segundo o dicionário, um herói é “um indivíduo notável pela coragem, ações extraordinárias ou altruísmo”. Porém, o que acontece quando o conceito de um herói perfeito bate de frente com seus próprios pensamentos, ideais e até vontades e desejos? E, pior ainda, como reagir quando a responsabilidade de ser um herói não parte de um desejo genuíno, mas de uma pressão geracional?
Pode parecer balela trazer questionamentos tão filosóficos quando se trata de super-heróis, mas, em Dispatch, essa é a pergunta que move não só a trama em si, como também seus personagens riquíssimos. O peso de ser um super-herói, a responsabilidade de assumir seus erros e quebrar suas próprias crenças são o que fazem deste jogo uma das obras mais interessantes do gênero nos últimos anos — algo em que Marvel e DC têm falhado bastante recentemente.
Eu sou Esdras, mas pode me chamar de Eddão, e hoje vamos preparar nossos mechas, ajeitar nossas cadeiras e falar sobre uma das grandes surpresas de 2025, que inclusive concorreu a Melhor Jogo de Estreia no The Game Awards. Hoje, vamos falar de Dispatch!
Dispatch abraça a galhofa do gênero de super-heróis de forma criativa e bem-humorada, sem medo de ser autêntico.
Dispatch é um jogo de aventura episódico desenvolvido e publicado pela AdHoc Studio, estúdio formado por ex-desenvolvedores da Telltale Games e da Ubisoft, em parceria com a Critical Role — uma web-série em que dubladores profissionais de jogos e séries jogam Dungeons & Dragons, composta por grandes nomes da dublagem estadunidense, como Matthew Mercer, Laura Bailey, Ashley Johnson, entre outros. O jogo foi lançado para PlayStation 5, PC e Nintendo Switch 1 e 2.
É importante citar a participação da Critical Role em Dispatch, pois o projeto se assemelha bastante a outras produções do grupo. O jogo possui uma escrita forte, personagens diversos e complexos e um tom +18, com palavrões, sangue e temas mais adultos — algo muito característico de projetos como A Lenda de Vox Machina, The Mighty Nein e outros. Isso cria uma identidade bem interessante para Dispatch, especialmente considerando que já existem outras obras que abordam super-heróis de forma mais adulta, como The Boys e Invincible. Porém, diferente dessas, Dispatch se concentra em apresentar uma gama de heróis e vilões que precisam, além de coexistir, trabalhar juntos para manter uma cidade livre da criminalidade. O jogo possui oito episódios no total.
À primeira vista, o jogo lembra bastante outros títulos episódicos, como Life Is Strange e produções da Quantic Dream, como Detroit: Become Human, Beyond: Two Souls e Heavy Rain. Mas, diferente deles, o foco de Dispatch é totalmente narrativo. Enquanto em Detroit ou Life Is Strange existe um peso maior na jogabilidade, exploração de ambiente e momentos de ação que exigem decisões rápidas, Dispatch toma o caminho oposto e se torna uma espécie de “série animada interativa”. Ou seja, ele se parece mais com uma série de TV em que você toma decisões do que com um jogo tradicional. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo do seu gosto.
Isso não significa que Dispatch não tenha nenhuma jogabilidade, mas, em comparação com outros jogos do estilo, ela é mais secundária. Você pode estar pensando: “Mas a história é realmente boa, já que vou passar mais tempo assistindo do que jogando?”. E a resposta é: sim — e muito!


Dispatch conta a história de Robert Robertson, um super-herói conhecido como Mecha Man. Antes dele, seu pai carregava o manto do herói. Um dia, seu pai é assassinado por um ex-parceiro que o traiu e se tornou um vilão cruel chamado Shroud. Após essa perda, Robert se vê obrigado a assumir o legado e se torna o novo Mecha Man.
Depois de incontáveis vitórias, Robert encontra um capanga de Shroud, que revela a localização de seu esconderijo. Ele invade o local e entra em combate, mas o inimigo desperta poderes tóxicos. Percebendo que seu mecha está prestes a ser destruído, Robert usa o resto de energia que lhe resta para fugir. Durante a fuga, ele percebe que havia uma bomba acoplada às costas do mecha, o que o deixa em coma por meses.
Sentindo que falhou com todos, Robert decide fazer uma coletiva de imprensa e anuncia a suspensão de suas atividades como Mecha Man. Pouco depois, ao tentar enfrentar um grupo de ladrões, ele é salvo por uma super-heroína chamada Blonde Blazer (ou Loira Luminar, na tradução brasileira), que o convida para trabalhar na Superhero Dispatch Network (SDN), uma empresa que despacha super-heróis para missões em prol da sociedade.
Vendo nisso uma chance de continuar sendo um herói — e com a promessa de consertarem seu mecha —, Robert aceita e passa a integrar o “Projeto Fênix”, iniciativa em que ex-vilões podem se redimir trabalhando como heróis assalariados. É nesse momento que somos apresentados à Equipe Z, formada por Invisiva, Flambae, Sonar, Malévola, Golpe Baixo, Prisma, Coupé e Golem — todos ex-vilões.
O objetivo de Robert é simples: coordenar a Equipe Z, enviá-los para missões pela cidade e, ao mesmo tempo, ensiná-los sobre a responsabilidade e o peso de ser um super-herói. É nesse núcleo que surge uma das ideias mais interessantes de Dispatch: a união de Robert, com seu passado heroico, com antigos vilões — alguns dos quais ele já enfrentou anteriormente.
Para completar, o jogo traz um elenco impressionante. Robert é interpretado por Aaron Paul (Breaking Bad). Também participam Jeffrey Wright, Laura Bailey, Alanah Pearce, Matthew Mercer e Travis Willingham, além de criadores de conteúdo como Jacksepticeye e MoistCr1TiKaL, e músicos como Thot Squad e Yung Gravy.
Dispatch aposta fortemente em fazer você criar empatia pelos personagens, e isso se reflete nas escolhas ao longo da história. Cada decisão pode alterar aspectos pequenos ou grandes da trama, desde interesses românticos até a forma como a sociedade enxerga Robert, a Equipe Z e a própria SDN.


Apesar da jogabilidade mais simples, o jogo introduz uma mecânica interessante de estratégia e gerenciamento. Cada membro da Equipe Z possui atributos: Combate, Vigor, Mobilidade, Carisma e Intelecto. Esses atributos influenciam diretamente o sucesso das missões. Confrontos exigem personagens com alto Combate; negociações pedem Carisma; investigações pedem Intelecto mas podem se beneficiar de habilidades específicas também.
Além disso, certos personagens desbloqueiam opções exclusivas em missões específicas. Malévola, por exemplo, tem conhecimento sobre seitas bizarras, o que facilita investigações envolvendo cultos. Cada herói também possui poderes próprios: Golem pode criar clones de si mesmo, duplicando seus atributos; Golpe Baixo é imune a ferimentos e, ao se machucar, recebe melhorias em seus atributos.
Ao enviar um personagem para uma missão, ele fica temporariamente indisponível até sua conclusão. Depois disso, retorna à base da SDN, passa por um período de descanso e, em seguida, pode ser convocado novamente para novas tarefas. Após a conclusão de cada missão, você avalia o resultado. Sucessos rendem XP para evoluir atributos; falhas podem causar ferimentos e até deixar personagens indisponíveis. Há ainda treinamentos especiais, nos quais você escolhe entre duas habilidades — uma decisão permanente. O jogo também conta com um sistema de sinergia entre personagens. Basicamente, quando dois heróis específicos são enviados juntos em uma missão — se forem personagens que se gostam ou se admiram —, eles desenvolvem sinergia ao concluir a tarefa. Essa sinergia concede um bônus de sucesso nas missões, o que pode evitar falhas ou até impedir que seus personagens se machuquem.


Pessoalmente, esse sistema de envio de heróis foi uma das minhas partes favoritas. Ele exige planejamento rápido e priorização: às vezes vale mandar apenas um personagem para missões simples e guardar os mais fortes para situações críticas. Também existem minigames de hackeamento, com sequências de botões, firewalls, representados por inimigos esféricos que te perseguem e limites de tempo, que adicionam tensão ao andamento da narrativa.

Outro ponto que merece destaque é a qualidade da animação em si. Os cenários, o design dos personagens, o visual dos inimigos e tudo o que compõe o jogo artisticamente apresentam um nível absurdo de qualidade. É possível compreender a personalidade de cada membro da Equipe Z apenas olhando para eles. Além disso, as cenas, no geral, são extremamente bem animadas — lindas de se assistir em uma tela grande e, pessoalmente, batendo de frente com muitas animações por aí.
Para completar, o jogo preenche esses cenários criativos e momentos marcantes com uma trilha sonora igualmente inspirada. Tanto a trilha original quanto as músicas licenciadas entram exatamente nos momentos certos, elevando cada cena de forma especial e única: as partes engraçadas ficam ainda mais engraçadas, enquanto os momentos emocionantes e tristes se tornam verdadeiramente poderosos e intensos.

Os combates se resumem, em grande parte, a quick time events, o que diminui o impacto das falhas. E aqui entra um dos maiores pontos negativos do jogo: durante as cenas de ação, você não se sente realmente parte do confronto — apenas apertando botões. Além disso, esses eventos se limitam quase exclusivamente ao Robert/Mecha Man; os outros personagens apenas assistimos lutar.
Outro ponto é a duração irregular dos episódios. Alguns são muito curtos. Embora isso seja mais uma questão de gosto pessoal, confesso que gostaria de episódios mais longos, especialmente considerando o carisma do elenco. Porém, um contraponto interessante em relação à duração dos episódios é que isso permite explorar todas as ramificações das escolhas do jogo, o que me levou a zerar a campanha três vezes para ver finais e acontecimentos diferentes. Isso é excelente, pois deixa claro que suas decisões realmente têm um peso narrativo significativo, obrigando você a prestar atenção em cada escolha.
Eu gostei muito tanto das pequenas quanto das grandes mudanças que o jogo proporciona. Não existe um final canônico nem escolhas canônicas — ou seja, a forma como VOCÊ viveu a história é a que realmente importa.
Dispatch é um daqueles jogos que marcam pelos personagens, pela história e pelas mensagens que querem transmitir. É uma obra sobre heroísmo, altruísmo, redenção e, acima de tudo, segundas chances. Um jogo que abraça a galhofa do gênero de super-heróis de forma criativa e bem-humorada, sem medo de ser autêntico.
Mesmo tendo zerado no início de 2026, Dispatch se tornou um dos meus jogos favoritos de 2025. Assim como aconteceu com Clair Obscur: Expedition 33, digo o mesmo aqui: agora eu entendo por que esse jogo é tão amado.
Se você gosta de experiências focadas em narrativa, super-heróis, uma vibe mais adulta e personagens engraçados e cativantes, Dispatch é o jogo para você. Uma obra-prima do gênero — e que certamente me deixa animado para uma futura sequência.
Keep up!

